Renúncia e crise política no Paraguai
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5) em meio a um escândalo financeiro que envolve o Ueno Bank, uma das maiores instituições digitais do país, com 2,9 milhões de clientes. A decisão ocorre em um momento de forte pressão política, enquanto a Câmara dos Deputados avaliava a abertura de um processo de impeachment contra ele.
Peña justificou a saída afirmando que a medida visa preservar a estabilidade do Paraguai, a paz social e as instituições democráticas. Em vídeo publicado na rede X, destacou que nenhum cargo está acima do bem-estar nacional e pediu desculpas ao povo, reconhecendo falhas na confiança depositada.
Impeachment e sucessão presidencial
O pedido de impeachment contava com apoio até mesmo da base governista, o que indicava a possibilidade de aprovação por unanimidade. Durante a sessão, a deputada Jazmín Narváez, do Partido Colorado, confirmou a renúncia do presidente em exercício, enquanto discursava a favor da abertura do processo.
Na sequência, os deputados rejeitaram o pedido de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana, que agora assume a Presidência do Paraguai. Essa movimentação estabelece uma transição rápida e evita um prolongamento da crise institucional.
Contexto político e histórico do Partido Colorado
Santiago Peña assumiu o cargo em março de 2023, com mandato previsto até 2028. Sua eleição reforçou o domínio do Partido Colorado, que governa o Paraguai há quase sete décadas, desde a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), exceto pelo período do ex-bispo Fernando Lugo, que foi afastado por impeachment em 2012.
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Peña é o terceiro presidente a deixar o poder antes do término do mandato. Raúl Cubas Grau, em 1999, foi outro líder a renunciar em meio a uma grave crise política envolvendo a morte de seu vice-presidente, também ligado a disputas internas no Partido Colorado.
Escândalo financeiro e impacto institucional
As denúncias contra o Ueno Bank desencadearam a prisão de oito pessoas ligadas à instituição e provocaram manifestações em frente às agências bancárias. O Banco Central do Paraguai anunciou o fechamento do banco e iniciou processo de recuperação judicial, situação que agravou a instabilidade econômica e institucional.
O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, indicado por Peña, também renunciou. Carvallo havia sido investidor na holding do Ueno Bank até março de 2025, o que levantou suspeitas de conflito de interesses. A oposição aponta que Peña teria favorecido o banco com decisões regulatórias e a concentração de recursos previdenciários na instituição.
Reações populares e medidas emergenciais
Centenas de pessoas protestaram em Assunção exigindo o ressarcimento dos depósitos e o julgamento do ex-presidente. Filas se formaram nas agências do Ueno Bank, com clientes tentando sacar seus recursos.
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O Banco Central assegurou a devolução de depósitos de até cerca de US$ 38 mil (R$ 208,48 mil) por cliente, porém com prazo de até 15 dias para o pagamento. Desde a suspensão dos serviços, milhares de clientes ficaram sem acesso ao dinheiro, agravando a crise de confiança no sistema financeiro local.
Problemas de gestão e investigação
A deterioração financeira do Ueno Bank foi marcada pela queda do índice de solvência para 5,56%, muito abaixo do limite regulatório de 12%. Investigações apontaram falhas na avaliação de riscos, inconsistências nas informações financeiras e concessão de empréstimos a empresas ligadas aos acionistas do banco.
O Ueno Bank pertence ao Grupo Vázquez, liderado pelo empresário Federico Miguel Vázquez, que controla recursos públicos superiores a US$ 850 milhões (aproximadamente R$ 4,7 bilhões), incluindo fundos do Instituto de Previdência Social do Paraguai.
O governo garantiu que vai reembolsar parte dos depósitos afetados enquanto o processo de recuperação judicial avança, numa tentativa de conter o impacto social e manter a confiança no sistema financeiro nacional.

