Nordeste ganha espaço como polo estratégico para data centers
O Brasil figura como um dos destinos mais atraentes para a instalação de data centers, principalmente por combinar mão de obra com custo competitivo, abundância hídrica, localização geográfica favorável e, essencialmente, uma ampla oferta de energia renovável. Embora o Sudeste concentre a maioria dessas estruturas, com 143 unidades segundo levantamento do Diario baseado no Data Center Map, o Nordeste surge com força, abrigando 19 centros e com potencial para expandir significativamente, graças à disponibilidade de fontes renováveis.
Energia e água: desafios e soluções no Nordeste
Data centers demandam grandes volumes de energia e água potável para manter suas operações. Essa característica torna a sustentabilidade um ponto crucial para a viabilidade dos empreendimentos e para as regiões que os recebem. O Redata, programa de incentivos tributários sancionado em 2026, vincula benefícios fiscais a compromissos ambientais e de consumo energético. Em paralelo, uma medida provisória de 2025 determina que as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) do Brasil adotem exclusivamente energia de fontes renováveis, atualizando a legislação vigente sobre o tema.
Atualmente, no Nordeste, Ceará e Piauí possuem ZPEs ativas, funcionando como áreas de livre comércio com o exterior e oferecendo vantagens fiscais e administrativas que facilitam a instalação de data centers. Além destes estados, Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte e Pernambuco se destacam pela geração de energia limpa, com fontes como eólica, solar e biomassa.
Expansão da energia renovável impulsiona novos projetos
Segundo dados de março de 2026 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Nordeste foi responsável por 68% da nova capacidade instalada de energia no país em 2024, com mais de 7 mil MW provenientes sobretudo de fontes renováveis, conforme a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Esse crescimento atrai empreendimentos que buscam se beneficiar da demanda crescente por energia limpa para centros de dados.
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Um exemplo é o Ecopolo Nordeste, em Delmiro Gouveia (AL), que deve ser concluído até o primeiro semestre de 2027. O projeto combina um polo de bioenergia com data centers de grande porte, operando sob o conceito de “simbiose industrial”, onde resíduos e subprodutos são reaproveitados para fechar ciclos produtivos. José Viana, CEO do empreendimento, destaca que metade da área será dedicada a data centers e a outra metade a indústrias sustentáveis.
Viana detalha soluções para os desafios tradicionais dos data centers: “Produzimos 100% da energia de forma renovável e independente da rede nacional, evitando impactos no fornecimento local. Quanto à água, tratamos o esgoto da cidade para reutilizá-lo na refrigeração, sem descartes.” A localização estratégica de Delmiro Gouveia, a cerca de 500 km das capitais nordestinas e conectada por rodovias como BR-423 e BR-101, também favorece a logística do polo.
Impacto econômico e capacitação profissional
O Ecopolo Nordeste também se destaca pelo potencial de geração de empregos: uma das empresas previstas deve criar 1.200 vagas diretas e 6.000 indiretas. Para garantir mão de obra qualificada, o polo planeja parcerias com o Instituto Federal de Alagoas (IFAL) e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), focando em cursos técnicos como instrumentação industrial, mecânica e eletricidade.
Apesar das vantagens da região, Iuri Santos, gerente de tecnologia da Kingston, alerta que fatores econômicos e regulatórios ainda influenciam a decisão de investidores estrangeiros. Ele destaca que mudanças frequentes em benefícios fiscais e incertezas jurídicas podem afastar aportes internacionais. Além disso, a infraestrutura global ainda sente o impacto do aumento expressivo da demanda, especialmente com a expansão da inteligência artificial, o que eleva custos e retarda a implementação de novos centros.
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Fonte: novaimperatriz.com.br
Cenário dos data centers em Pernambuco
Pernambuco conta hoje com três data centers, segundo o Data Center Map, e tem condições favoráveis para ampliar esse número devido a sua localização e oferta de energia limpa. Pierre Lucena, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do Porto Digital, maior distrito de tecnologia da América Latina, afirma que a autonomia digital do país depende do processamento local dos dados, evitando que informações estratégicas sejam expostas no exterior.
Lucena ressalta a importância de manter políticas públicas consistentes, como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que une governo, academia e setor privado em prol da autonomia tecnológica. Ele alerta para os riscos de investimentos focados apenas na especulação ou em modelos que reproduzam monoculturas energéticas, sem gerar benefícios reais para a região.
Para o professor, Pernambuco deve apostar no desenvolvimento da economia do conhecimento e na capacitação do capital humano. “Temos mais vagas em universidades públicas do que São Paulo proporcionalmente e precisamos atrair indústrias que valorizem essa mão de obra, como software, engenharia e o polo médico”, explica. O Porto Digital, que reúne empresas de biossegurança, geolocalização e serviços financeiros, é um exemplo desse modelo integrado. O objetivo é que os data centers atendam a demanda local e fortaleçam a indústria do conhecimento, e não sejam apenas máquinas de processamento de dados em larga escala.

