Como a Inteligência Artificial Está Mudando o Reconhecimento de Aromas
A inteligência artificial já faz parte do nosso cotidiano na criação de textos, imagens e na análise de dados complexos. Agora, um desafio ainda maior está sendo enfrentado: traduzir o olfato em códigos que máquinas consigam interpretar. O professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Leandro Maciel de Almeida, lidera esse avanço ao desenvolver um sistema que combina sensores específicos com modelos de IA para identificar aromas com precisão.
Leandro, que também é cofundador e CTO da Aromalytics, detalha o funcionamento do equipamento. Ele explica que o processo começa com a análise de amostras conhecidas, onde as moléculas que volatilizam são capturadas e transformadas em dados para treinar o sistema. “Se eu colocar 1 ml de um perfume, as moléculas que se desprendem viram dados no modelo de IA. Digo que esse é o perfume A e repito o procedimento para o perfume B”, exemplifica o pesquisador.
A Aromalytics divulgou que a tecnologia alcança mais de 95% de reconhecimento em análises rápidas, de até 60 segundos, e consegue diferenciar substâncias muito parecidas, como etanol e metanol, com 98% de exatidão.
Aplicações Práticas na Saúde e no Consumo
O alcance dessa inovação vai além do mundo da perfumaria. O grupo de pesquisa liderado por Leandro na UFPE já aplicou essa técnica para detectar padrões em alimentos, bebidas, contaminantes do ar, além de fungos, bactérias e doenças. Um destaque é o uso em hospitais do Recife, onde o sistema consegue diagnosticar infecções hospitalares a partir de uma pequena amostra de sangue de pacientes em unidades de terapia intensiva (UTIs).
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“Com uma gota de sangue ou até menos, é possível identificar se o paciente está contaminado por fungos específicos, facilitando um diagnóstico rápido”, relata o professor. Essa agilidade pode ser decisiva para acelerar tratamentos e melhorar o atendimento médico.
Além disso, o pesquisador destaca que a inteligência artificial pode detectar doenças através do hálito, embora os modelos usados variem conforme o objetivo. “As plataformas para perfumaria e saúde são diferentes, pois a área médica exige uma abordagem muito mais complexa”, comenta.
Construindo uma Biblioteca Digital de Aromas
Apesar dos avanços, um dos maiores desafios ainda é organizar e padronizar os dados de aromas. Durante o painel “Sentir, Ser e o que a IA (Ainda) Não Faz”, Leandro revelou uma parceria com o Reino Unido para criar um protocolo que mapeie e cataloge diferentes padrões olfativos.
Essa iniciativa pretende digitalizar o olfato, criando uma “biblioteca de cheiros” que permitirá o reconhecimento mais eficiente e sistemático dos aromas pelas inteligências artificiais. Para o professor, essas ferramentas funcionam como um microscópio, ampliando a percepção humana ao identificar padrões que o nosso olfato sozinho não captaria.
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Apesar do potencial, Leandro ressalta os limites da IA nesse campo. A tecnologia consegue detectar e classificar cheiros, mas ainda não alcança a experiência subjetiva que o olfato proporciona. “Sentir é uma experiência humana. A IA só detecta o cheiro”, afirma.
Ele reforça que a relação entre aromas e memórias pessoais, como o cheiro da infância ou algo agradável ou repulsivo, depende das vivências individuais — algo que a inteligência artificial ainda não consegue replicar.
O painel contou ainda com a participação de Joana Miranda Formigone, diretora de P&D da Natura Cosméticos, e do cientista cognitivo Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e colunista do UOL, que mediou a discussão.

