Inovação tecnológica acelera ressarcimento na saúde pública
Uma solução de inteligência artificial adotada pela Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE) revolucionou o envio de pedidos de ressarcimento de despesas ao Ministério da Saúde. O número mensal de processos encaminhados saltou de 276 para 4.506, ampliando em 16 vezes a capacidade administrativa do estado. A ferramenta é utilizada para recuperar valores pagos pelo governo estadual em medicamentos, tratamentos e procedimentos que, apesar de determinados judicialmente, deveriam ser custeados pela União.
Desenvolvimento local com impacto financeiro significativo
Operando desde novembro de 2025, a tecnologia foi criada em parceria com a Di2win, empresa de tecnologia sediada no Porto Digital, em Recife. Pernambuco projeta recuperar cerca de R$ 780 milhões em processos já submetidos ao governo federal, além de outras solicitações em andamento. Antes da implantação da ferramenta, o estado acumulava aproximadamente R$ 1 bilhão em valores passíveis de ressarcimento, segundo Álvaro Pinheiro, diretor de Inteligência Artificial da SES-PE. O volume elevado de demandas e a complexidade documental dificultavam o envio dos pedidos.
Como funciona o ressarcimento administrativo
O ressarcimento ocorre quando Pernambuco é obrigado judicialmente a custear medicamentos, tratamentos ou procedimentos que deveriam ser financiados pela União no Sistema Único de Saúde (SUS). Após realizar esses pagamentos, o estado precisa organizar documentos, preencher formulários e encaminhar a solicitação ao Ministério da Saúde, processo que agora é agilizado pela inteligência artificial.
AIRA: a inteligência artificial por trás da agilidade
Batizada de Agente Inteligente de Ressarcimento Administrativo (AIRA), a ferramenta foi customizada para a SES-PE a partir de junho de 2025, utilizando Processamento Inteligente de Documentos (IDP), tecnologia desenvolvida pela Di2win. A AIRA atua sobre processos no Sistema Eletrônico de Informações (SEI), interpretando documentos relacionados a decisões judiciais da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).
Por meio do Reconhecimento Inteligente de Caracteres (ICR), a solução lê documentos digitalizados e manuscritos, convertendo-os em dados estruturados. Essas informações são automaticamente organizadas e inseridas nos formulários requeridos pelo Ministério da Saúde. Além disso, a ferramenta utiliza modelos de linguagem de grande escala (LLMs) para interpretar textos e imagens, alcançando 98% de precisão na extração de dados — índice superior aos 70% a 80% de outras tecnologias avaliadas anteriormente.
Eficiência, precisão e redução de erros
A automatização diminui o tempo para preparação dos pedidos e reduz erros no preenchimento, garantindo maior agilidade no processo. Isso é especialmente relevante porque o Ministério da Saúde analisa as solicitações conforme a ordem de chegada. Yves Nogueira, diretor de Estratégia da Di2win, destaca que a tecnologia pode ser aplicada a outras secretarias de saúde e em contextos que demandem identificação e extração de dados de documentos digitalizados.
Novas possibilidades e expansão do uso da IA na SES-PE
Com os resultados obtidos, a SES-PE avalia estender o uso da inteligência artificial para outras áreas, como a leitura e extração de dados de prontuários clínicos, alimentando a Rede Estadual de Dados em Saúde (REDS). Essa plataforma integra informações de hospitais, unidades de média complexidade e serviços de atenção primária, e a IA pode acelerar a organização e integração desses dados.
Contexto legal do ressarcimento no SUS
O ressarcimento está ligado à divisão de responsabilidades financeiras entre União, estados e municípios no SUS. Segundo entendimento do Supremo Tribunal Federal, quando um ente federativo assume despesas de outro, pode solicitar compensação financeira. Os pedidos envolvem gastos com medicamentos não incorporados ao SUS, tratamentos oncológicos, procedimentos de média e alta complexidade, além de atendimentos previstos nos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas.
Embora exista o direito à compensação, a devolução dos valores não é automática. Cada solicitação depende da correta apresentação documental e da análise pelo Ministério da Saúde, processo que agora ganha eficiência com o suporte da IA.
Di2win: tecnologia pernambucana com reconhecimento
Localizada no Porto Digital, a Di2win é referência no desenvolvimento de sistemas de Processamento Inteligente de Documentos e Gêmeos Digitais Organizacionais. A empresa possui mais de 200 publicações científicas, 44 registros de propriedade intelectual no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e já processou mais de 2 bilhões de documentos em suas plataformas, consolidando-se como uma deep tech com impacto real na gestão pública e privada.

