Universo simbólico entre céu e natureza
As texturas, cores e formas da pintura do artista pernambucano Ramonn Vieitez parecem guiar suas mãos com autonomia própria, numa busca constante por um horizonte que é ao mesmo tempo profundo e inquietante. Essa busca é o fio condutor da exposição “O Céu Não Cabe em Nenhum Paraíso”, que estreia para o público na próxima quinta-feira (6), às 19h, na Galeria Marco Zero, e ficará aberta para visitação gratuita até 25 de setembro.
Composta por 30 obras inéditas, a mostra tem curadoria assinada por Yuri Quevedo e reforça a criação de um universo simbólico que dialoga tanto com figuras do imaginário medieval quanto com fenômenos naturais intensos. Ramonn descreve o interesse pelo mistério presente em manuscritos antigos, onde a ideia de um paraíso celestial aparece de forma recorrente. “Esse senso de mistério e do fantástico sempre me interessou no meu trabalho”, afirma o pintor. Ele acrescenta que, ao olhar para as obras, percebe algo mais humano e descontrolado, o que inspirou o título da exposição: o céu que busca não é um lugar fixo, mas algo que pode estar em vários espaços.
Obras que transitam entre o terreno e o sobrenatural
Os títulos das telas, como “A Criação da Luz”, “A Serpente de Fogo”, “O Dia Mais Estranho do Mundo” e “O Abismo Reconheceu Algo Semelhante”, revelam o trânsito dos conceitos visuais entre elementos terrestres e aspectos intangíveis, quase sobrenaturais. Essa tensão se manifesta tanto na expressividade agressiva das obras, marcada por uma fúria e movimento específicos, quanto na forma como o artista descreve seu processo criativo.
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“Costumo dizer que o trabalho manda em mim, mas eu não mando nele. Não sinto que faço nada, pelo contrário: é como se fosse levado a realizar alguma coisa e só assim algo vai realmente surgindo e, uma vez ganhando forma, adquire também significados”, explica Ramonn. Ele destaca o desejo de provocar curiosidade no público, valorizando o diálogo e as interpretações variadas, sem impor uma leitura única.
Curadoria e materialidade como elementos de destaque
O curador Yuri Quevedo acompanhou de perto a seleção das obras ao lado do artista e ressalta que não há hierarquia ou planos fixos na composição das peças. “Todas as coisas da criação são fruto do mesmo gesto da mão”, comenta. Além disso, Quevedo destaca o uso do alumínio como um recurso de destaque: “Sua superfície é trabalhada com a atenção de um ourives. Ao buscar na memória do próprio corpo aquilo que resta da luz, ele transforma um fenômeno fugidio em objeto durável e oferece ao mundo aquilo que sua oficina sabe produzir de melhor”.
Assim, a exposição de Ramonn Vieitez na Galeria Marco Zero convida o público a mergulhar em um universo onde o céu escapa a qualquer definição rígida e se mistura com forças naturais intensas, provocando reflexões sobre o humano e o transcendental.

